"Na utopia com a qual costumo sonhar, todo mundo escreveria e leria. Um silêncio carregado de pensamentos trocados relegaria as falações supérfluas às margens da existência."
A passagem acima encontra-se no final (pág. 150) do livro Todo mundo devia escrever, de Georges Picard, publicado pela Parábola Editora (2008). Seria uma ótima epígrafe para este blog: ler, pensar, escrever...
O escritor português António Lobo Antunes, em evento da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina hoje, afirmou:
"Se alguém deseja ser escritor deveria assistir por dez minutos ao jogador Mané Garrinha em ação, pois não sai do corpo, sai da alma. Para escrever tem que ter dentro de si um Garrincha. É muito difícil escrever, é um trabalho impossível, por se trabalhar com coisas que são intraduzíveis em palavras, coisas anteriores às palavras que são as emoções, os impulsos. O grande problema é como transformá-los em palavras, transformar a linguagem das emissões numa linguagem que não se exprime através das palavras."
Garrincha, por favor, nos mostre o escritor em campo:
Coisas assim, como encontrar livros bons baratíssimos, num sebo improvável, numa tarde fria, como este Two cheers for democracy, de E.M. Forster, por 50 centavos (isso mesmo, 50 centavos)...
Ou a edição em francês de um livro decisivo para o meu trabalho, Comme un roman, de Daniel Pennac...
Ótimo tempo para ler. E livros não faltam. E às vezes ganhamos de presente. Como este, da professora Irandé Antunes, Língua, texto e ensino, pela Parábola Editora. E Irandé fala da "cultura do erro" tão presente na escola. O que me faz lembrar que estou para escrever sobre a errologia, ciência nova, cheia de possibilidades.
Logo cedo, conversei por telefone com o meu amigo Prof. Kika, que concedeu entrevista ao Jornal da Unicamp em maio deste ano sobre livros de autoajuda consumidos pelos educadores brasileiros, tema do seu doutorado. Sua longa experiência com a formação docente dá credibilidade às conclusões a que chegou. Boa leitura!
Encontrei num sebo um livro da minha idade. Foi publicado em 1961 pela Editora Universitária, da UNE (tempo em que "Editôra" se escrevia com circunflexo para diferenciar do "editora" verbo). A capa meio castigada pelo tempo e o manuseio. As páginas iniciais amareladas mas o miolo em boas condições. É de Álvaro Vieira Pinto, A questão da universidade. Livro combativo, que lhe rendeu perseguições no tempo da ditadura militar.
Um fluxograma a ser feito, com as etapas, os momentos, os blocos, os módulos de um processo pessoal de leitura, pensamento e escrita. Um esboço pelo menos:
É questão de tempo, de esforço, de humildade, de teimosia. De persistência. De vontade. De estudo. De exercício. É questão de questionar menos e fazer mais. De questionar-se mais e reclamar menos. De fazer, refazer, retomar, recriar.
Então a pessoa começa a ser conhecida. E a ser divulgada espontaneamente. Li dois ou três comentários positivos ao cartunista argentino Ricardo Liniers, e agora eu o elogio, e trago uma de suas tirinhas aqui, e assim por diante...
Belo barulho de blogues blogando deram nisso, sob a responsabilidade de Nelson de Oliveira. Uma coletânea boa, com textos de Ademir Assunção, Ana Paula Maia, Ana Rüsche, Andréa del Fuego, Bruna Beber, Cassy Dias, Claudio Brites, Claudio Daniel, Edson Cruz, Fábio Fernandes, Fabrício Carpinejar, Gabriela Kimura, Índigo, Ivana Arruda Leite, Laura Fuentes, Linaldo Guedes, Marcelino Freire, Marcelo Maluf, Marilia Kubota, Petê Rissatti e Rinaldo de Fernandes.
As bocas sem caras da capa dizem tudo — elogiam, xingam, declaram ódio e amor, provocam, desprezam, riem e choram. E não é isso, afinal, o que sabemos fazer melhor?
Arrumando papéis que não acabam mais, deparo com uma foto antiga.
Era o dia da entrega dos prêmios da etapa carioca da IV Maratona Escolar José Lins do Rego (patrocinada pela Caixa Econômica Federal), em 1980. Fiquei em 4º lugar, com um trabalho sobre Fogo Morto. O concurso tinha por objetivo incentivar a formação do hábito de leitura, a capacidade de interpretação de textos e o desenvolvimento da prática de redação entre os alunos do antigo segundo grau nas escolas das capitais do país. Depois houve a premiação nacional, mas não cheguei lá.
Na foto, só os vencedores do Rio, em que aparecem três autoridades: o então presidente da Academia Brasileira, Austregésilo de Athayde, já bem velhinho, com 81 anos. Na outra extremidade, Arnaldo Niskier, naquela altura Secretário de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, e uma terceira pessoa, de terno claro, que eu não sei quem é, talvez alguém ligado à Caixa Econômica.
Voltando à foto, da esquerda para a direita, Egídio Bento Filho, eu (com 17 anos de idade), Edil Lopes da Silva, Mônica Edelenyi Pinto e Jane Correa. E foram prêmios em dinheiro. Egídio ficou em 2º lugar, Edil em 5º, Mônica em 3º, Jane em 1º. Recebi, pelo 4º lugar, Cr$ 6 mil, mas não faço a menor ideia do quanto esses cruzeiros representariam hoje, lembrando que de lá para cá tivemos o Cruzado (1986), o Cruzado Novo (1989), de novo o Cruzeiro (1990), o Cruzeiro Real (1993) e o atual Real (1994)...
O poeta Fabrício Carpinejar disse outro dia, num debate literário: "Livro tem de ser legítimo, não entendo por que tem de ser adotado". Livro adotado, de fato, por mais amado que seja, parece que entrou meio de lado, e pode ficar encostado ali num canto, esperando ser chamado, a pulga atrás da página, da orelha, do prefácio — não é fácil ser livro adotado ou adotivo, parece que não há ligação carnal, visceral, filial, ligação umbilical, para o bem ou para o mal.
Na Revista Educação deste mês, um artigo meu sobre Paulo Leminski:
Coragem para pensar
Neste mês de junho de 2009 lembramos os 20 anos de falecimento do paranaense Paulo Leminski (1944-1989), um dos mais ousados escritores brasileiros do século passado. Bastaria mencionar o livro Catatau, de 1975, texto vertiginoso com frases lancinantes, experimentação contínua da linguagem. Numa passagem, Leminski recomenda ao leitor: "repara bem no que não digo". Trata-se de um romance que não tem nada a contar, mas muito tem a sugerir entre o saber e o signo.
O saber que não está dito, na literatura, pertence ao leitor criar e dizer, é convite a que entre em ação. Somos nós, leitores, convidados a pensar além da conta, além das linhas, além do óbvio, além do prescrito. Quanto mais corajoso for o escritor, mais coragem nos será exigida. Se Leminski testava a literatura em seus limites, cabe também ao leitor, com igual empenho, testar a sua capacidade de interpretar o dito e o nãodito. Ler Paulo Leminski é, portanto, exercício de crescimento e superação.
No poema "Erra uma vez", de La vie en close (1991), livro póstumo, o poeta declarou:
nunca cometo o mesmo erro duas vezes já cometo duas três quatro cinco seis até esse erro aprender que só o erro tem vez
Para além do trocadilho, o artista da palavra encara o erro como elemento do jogo verbal. Por isso não teme duplicar o "r", errar mais de uma vez. Por isso brinca com o erro e nele se inspira. Porque somente o erro tem vez. Não teme repetir o erro até que vejamos a importância do fazer e do descobrir. A certeza de que errar é humano deixa de ser uma lamúria, torna-se afirmação alegre da nossa condição. Somente errando é que se aprende. Mas o poeta diz mais: é o próprio erro que deve aprender o seu lugar nessa história, na história do nosso aprendizado
(Prossegue aqui, para assinantes da Revista ou do UOL.)